{"id":675,"date":"2020-09-05T12:22:25","date_gmt":"2020-09-05T15:22:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.espacoamazonico.com.br\/?p=675"},"modified":"2020-09-05T12:22:25","modified_gmt":"2020-09-05T15:22:25","slug":"lembrancas-de-canutama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacoamazonico.com.br\/?p=675","title":{"rendered":"LEMBRAN\u00c7AS DE CANUTAMA"},"content":{"rendered":"\n<p>        Formei-me em Direito no ano de 1959. Em 1960<strong>,<\/strong> j\u00e1 fazia minha estreia como advogado, indo de Manaus ao long\u00ednquo munic\u00edpio de Canutama, no Estado do Amazonas, ingressar com uma a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse das terras de um seringal, \u00a0o que me rendeu \u201cuns bons\u00a0 trocados\u201d que me possibilitaram\u00a0 comprar o meu primeiro carro, um antiqu\u00edssimo \u201cAustin A-10\u201d, com uma enorme performance e uma hist\u00f3ria singular, que contarei em outra oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nunca pensei enfrentar tantas horas de v\u00f4o dentro do territ\u00f3rio amazonense. Para chegar a Canutama viajei num avi\u00e3o Catalina, carinhosamente apelidado de \u201cPata Choca\u201d, o qual levou uma eternidade de Manaus at\u00e9 aquele munic\u00edpio. Para mim, que n\u00e3o gosto de viajar de avi\u00e3o, foi um supl\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A verdade \u00e9 que depois de muito sofrer com os solavancos, cheguei a Canutama e quase morri de susto quando o avi\u00e3o amerissou. A \u00e1gua encobriu toda a aeronave e eu pensei que era um mergulho sem retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Refeito do susto, procurei pela cidade. Era bem pequena, o que me causou certo espanto, mas tinha um povo acolhedor e amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como n\u00e3o tivesse onde ficar, terminei na casa paroquial, na qual dormi meio sobressaltado, pois a porta n\u00e3o fechava. Soube, no dia seguinte, que n\u00e3o havia perigo, em face de n\u00e3o existirem malfeitores no lugar. Hoje, n\u00e3o sei se \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo que o F\u00f3rum come\u00e7ou a funcionar, l\u00e1 estava eu, de peti\u00e7\u00e3o na m\u00e3o, para dar entrada. Felizmente a liminar foi concedida sem delongas, e a reintegra\u00e7\u00e3o foi realizada, com muita dificuldade, porque as terras em lit\u00edgio ficavam um pouco distantes da sede do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na regi\u00e3o havia muito pium, um bichinho infernal que d\u00e1 tanta coceira que n\u00e3o deixa a pessoa dormir em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A comida era escassa porque, na ocasi\u00e3o, a pesca estava dif\u00edcil. Mas existiam os animais silvestres. Eu n\u00e3o estava acostumado com essa carne. O jeito foi comer mingau de maizena durante algum tempo (engordei v\u00e1rios quilos).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas, o que mais me sufocava, era a solid\u00e3o. \u00c0 noite, a melancolia aumentava.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora, uma ironia do destino: anos depois, fiz concurso para Promotor, passei em primeiro lugar, e sabem onde fui lotado? Em Canutama.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A verdade, meus irm\u00e3os brasileiros, \u00e9 que \u00e9 admir\u00e1vel o estoicismo do caboclo, perdido na imensid\u00e3o amaz\u00f4nica, num verdadeiro estado de abandono, com uma regi\u00e3o t\u00e3o rica ao seu redor, mas sofrendo, calado, e esperando a a\u00e7\u00e3o dos poderes p\u00fablicos, que nunca aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao escrever esta cr\u00f4nica, quero prestar minha homenagem ao bravo povo de Canutama, que ali vive heroicamente, nutrindo esperan\u00e7as por dias melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Formei-me em Direito no ano de 1959. 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